Códigos de afeto
sexta-feira, 30 de abril de 2021
Código de afeto 2
Sempre bem cedo, quando eu estava lá, ouvia a batida na porta: Ca-fe-zi-nhoooo! Era ele, cantarolando que a mesa estava posta. O cheiro do café invadia o quarto, a casa, a vida. Muitas vezes, eu fingia não ouvir, cheia de sono. Felizmente, na maioria delas participei dessa hora da manhã: ele sempre comia mamão, às vezes com aveia, antes do café com pão e manteiga. Fazia questão de buscar pão naquela padaria porque sabia que eu adorava umas rosquinhas de coco. Trazia as rosquinhas para mim. Toda vez. Ele gostava de comidas saudáveis, frutas, verduras, legumes, e, quando passavam alguma receita de remédio caseiro ou de um prato diferente, logo se punha a fazer. Cozinhava bem. Fazia um quibe delicioso. E frango com polenta também. A geladeira podia estar lotada e lá vinha ele com sacolas cheias de novo, para desespero da minha mãe. Ah, como ela reclamava: detestava que viesse com melancia, porque ocupava um espaço imenso na geladeira, puxa! Ele, então, para acalmar os ânimos, lavava tudo e montava um quebra-cabeças. Viu? Coube tudo e ainda sobrou lugar! As arengações quase não passavam disso. E, enquanto ajeitava as frutas, ia contando que encontrou Fulano, filho de Beltrano, que estava morando não sei onde, fazia não sei o quê e tinha acontecido tal e tal fato. Conhecia muita gente e ficava abismado quando eu dizia que não me lembrava desse ou daquele. Como não? Tinha uma memória invejável, ele. E chamava os amigos de “Mestre”. Começava ou terminava uma conversa com “vamos que vamos”, seu jeito de dizer que tudo estava ou ficaria bem. Gostava de discutir política e de contar histórias. Virava criança com as crianças. A brincadeira era a sério. Imaginava com elas. Uma vez, até vendeu um cavalo grande, marrom, trotador, por cinco mil reais, para o menino de cinco anos, que foi pedir à mãe o dinheiro porque havia comprado do Sr. Argeo um “cavalo maravilhoso”, que não podia perder aquela oportunidade. Meu pai gostava de ver o pôr do sol sentado na sacada. Muitas vezes tirava foto da paisagem e me enviava pelo whatsapp. Ele gostava muito da vida. “Vamos que vamos”, pai, que logo eu, que nem gosto tanto assim, fiquei por aqui... quase seis meses... quanta falta você faz!
quarta-feira, 21 de abril de 2021
Código de afeto 1
Nós tínhamos um código. Nunca combinamos nada, bastava um mínimo movimento de olhar e uma já sabia o que a outra pensava. Sinto falta disso. Muita falta. Acho que é do que mais sinto falta, aliás. Às vezes, eu falava: quando você vir essa girafinha nessa posição aqui no balcão, vai se lembrar de mim. Ela respondia: ai, não me judia. Coisas simples, bobas, mas que a gente registrava no código do afeto. Quando ela fazia o mesmo comigo, eu já avisava que não adiantava, porque ao mínimo sinal de saudade eu pegaria o avião e estaria ali. Era sempre com o coração aos pulos que ela me esperava no aeroporto, junto com meu pai. Ia sempre arrumadinha, só para que eu dissesse que estava linda, com corpo de “Maria do Bairro”. Eu, ainda embarcada, sentia que meu mundo estava naquele abraço dos dois no andar superior, olhando a pista e à minha espera. Ela me abraçava com os olhos marejados. Eu era a primeira no coração de alguém. Junto com meu irmão. Éramos os quatro, sempre tão juntinhos, ainda que 800 quilômetros nos separassem. Todos os dias, tocava o telefone e eu ouvia que era só para dar um oi. Ou era eu quem ligava e dizia também isso. Às vezes mais de uma vez por dia. Agora é silêncio. Nunca mais meu telefone tocou com alguém dizendo que é só para dizer oi. Faz cinco meses que olho para cada pontinho de cada tapete que ela me fez. Procuro guardar muita coisa no mais fundo de mim, porque dói pensar que só há o tapete, não mais as mãos que muitos outros fariam. Se ela lesse isso agora, ficaria entre emoção e orgulho, porque não caberia em si com uma declaração de amor minha. E eu a encheria de mimos, roupas, utensílios, perfumes e qualquer coisa em que enxergasse a cara dela, porque esse era meu jeito de dizer que a amava.
Assinar:
Postagens (Atom)
Código de afeto 2
Sempre bem cedo, quando eu estava lá, ouvia a batida na porta: Ca-fe-zi-nhoooo! Era ele, cantarolando que a mesa estava posta. O cheiro do c...
-
Nós tínhamos um código. Nunca combinamos nada, bastava um mínimo movimento de olhar e uma já sabia o que a outra pensava. Sinto falta disso....
-
Sempre bem cedo, quando eu estava lá, ouvia a batida na porta: Ca-fe-zi-nhoooo! Era ele, cantarolando que a mesa estava posta. O cheiro do c...